
E ao descer da bicicleta velha do meu avô, ao sentar na sacada de madeira úmida e velha que ficava na varanda, de frente para o mar, me recordei de todos os momentos bons de minha infância. As boas lembranças.
Acho que depois que cresci deixei de ligar para as coisas boas que a vida me oferecia. Pois, cresci na cidade, vivendo trancada num apartamento pequeno onde a unica maneira de tocar na floresta, é tocando na imagem que há na tela fria de vidro de meu computador.
Sentada na madeira podre que ameaçava cair, lembrava do mato, e que me deliciava ao ouvir o barulho das folhas secas partindo-se cada vez que dava um passo. E subir aquele morro, com cheiro de terra molhada e flores "maria sem vergonha", tendo que tomar cuidado com os rastros que os animais deixaram ao passar, era incrível para mim.
Eu me sentia bem, me sentia no lugar perfeito, sem um mundo de tecnologias pra me deixar com dor de cabeça. Pois era tão bom, arrancar frutinhas a maioria das vezes ainda meio verdolengas, como pitangas, amoras, goiabas...
Eu até hoje me pergunto. Onde foi parar aquela garota que se divertia simplesmente por entrar numa trilha desconhecida e descobrir os matagais que haviam por volta dela?
São essas as lembranças que me fazem sentir saudade do mundo não tecnológico e cheio de inocência.
Me levanto ao ver meus tios passarem por um portão que leva a um terreno baldio, cheio de arvores como laranjeiras, bananeiras e pitangueiras. Tinha de se olhar para o chão o tempo todo para não tropeçar em nenhuma pedra ou prender o pé em algum galho solto.
Deixei a bicicleta de lado e corri como uma criança até eles para entrar por lá. O morro era inclinado o que cansava um pouco ao subir. Mas não me importava com isso. Era divertido sentir a terra entrando em meu sapato e ter que sacudir os chinelos de dedo pretos de meu tio avô.
Não tive a oportunidade de conhecer a minha avó mas, me contentava com as simples lembranças que ela deixara ao longo do tempo.
Não coisas dela basicamente mas... coisas com as quais ela conviveu.
O tanque de cimento, onde se lavavam roupas a mão, no lado de fora do sítio, com muito esforço, o toque de um porta retratos em algum natal. O toque, que pra mim é tão delicioso, de uma fotografia, batida numa câmera dependendo de uma caixinha de filme ao invés de um cartão de memória preto, pequeno e sem graça nenhuma. Aquelas fotos, com baixa qualidade, não em cores, mas em um sépia, velho e manchado.
Era bom ver tudo aquilo na casa de meus avós. O toque das fotografias, das folhas secas, o sabor inconfundível das pitangas maduras e doces, e ao invés de levar as sementes até uma lata de lixo numa cozinha pequena e retangular, o que posso fazer é simplesmente lançar as sementes na terra, contribuindo para o nascimento de novas pitangueiras no enorme terreno.
Esses são os meus verdadeiros prazeres da vida. O que me faz sorrir e fechar os olhos simplesmente para sentir o adocicado cheiro da roça. O cheiro que não se confunde com fumaça e perfumes artificiais.
Corri de volta para a varanda buscar a bicicleta para guarda-la e voltar para casa, na cidade, guardando na mente, fotografias maravilhosas de toda a paisagem que vira.
E dormir com um imenso e único prazer que me fizera sorrir.
Esse texto se identificou com a musica do Cazuza: Minha flor meu bebê
Recomendo que leiam o texto ouvindo a música :)
Esse texto faz parte do concurso: Onde as palavras se sobrepõem
Espero que gostem.
Beijos *-*
2 comentários:
Que linda e bem emocionante tua participação!Boa sorte!beijos,chica
Oi docinho!!!
me ensina uma coisa?
como fasso para linkar?
tipo,aquele negócio de ''link me''
entende?
ei,tb estou participando dessa edição da OAPPS.
Eu não gosto de narrar ficção,mas a sua ficou muito linda!!
Eu prefiro escrever a realidade de uma maneira diferente.
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